A preocupação com a IA nos escritórios é legítima. O argumento contra ela, porém, está invertido.
Em algum momento, em algum escritório, alguém com poder de decisão já disse uma variação desta frase: "Não quero nenhum advogado aqui usando IA — eles vão perder a capacidade de pensar."
A preocupação é legítima. O argumento, porém, está invertido.
Ele parte de uma premissa que o ecossistema de redes sociais, com seu bombardeio de vídeos sedutores e promessas mágicas, consolidou no imaginário coletivo: o equívoco de pensar que a IA substitui o raciocínio humano. Também enganoso seria pensar que qualquer pessoa, sem formação jurídica, pode agora fazer o trabalho de um advogado com alguns cliques.
Essa narrativa é, ao mesmo tempo, o maior aliado e o maior inimigo da adoção responsável de IA nos escritórios de advocacia. Aliado porque gera curiosidade e pressão de mercado. Inimigo porque, ao inflar expectativas e distorcer a realidade da ferramenta, alimenta uma resistência que não ataca o problema certo.
O problema certo é outro: como o advogado usa a IA — e não se ele a usa.
Quando um modelo de linguagem avançado é utilizado para pesquisa jurídica, análise de risco contratual, mapeamento de jurisprudência ou estruturação de teses, ele opera como um sistema de processamento de linguagem com capacidade impressionante de síntese e correlação. Ele encontra padrões, organiza informação e reduz o tempo dedicado a tarefas cognitivamente intensas, mas mecânicas.
O que ele não faz — e isso precisa ser dito com clareza — é julgar. Não no sentido técnico-jurídico do termo.
A IA não sabe o que é relevante para este cliente, neste contexto, diante deste juiz, com esta estratégia processual em curso. Ela não tem acesso à conversa reservada que o sócio teve com o cliente na semana passada. Não sente a dinâmica política de um litígio societário. Não avalia se a tese tecnicamente mais robusta é também a mais conveniente naquele momento.
Isso exige formação, experiência e julgamento. Exige ser advogado.
A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB é taxativa nesse ponto: a IA é uma ferramenta de apoio à atividade intelectual, não um substituto para o raciocínio jurídico, a análise estratégica ou a tomada de decisões. A supervisão humana é inegociável, e o advogado permanece como responsável final pela qualidade, pela ética e pela segurança dos serviços prestados.
A IA, sem o advogado, produz texto sofisticado e juridicamente inerte — ou, pior, juridicamente perigoso.
Há uma característica contraintuitiva nas ferramentas de IA que raramente aparece nas redes sociais: quanto mais poderosa a ferramenta, mais conhecimento é necessário para usá-la bem.
Um martelo mal usado causa dano limitado. Um sistema de IA mal operado por alguém sem formação jurídica pode gerar pareceres com fundamentação inventada, citar jurisprudência inexistente, estruturar contratos com lacunas graves e entregar ao cliente a ilusão de segurança jurídica onde há apenas risco encoberto por linguagem técnica.
Isso não é hipótese. É o que ocorre quando a ferramenta é tratada como substituto em vez de amplificador.
O advogado que usa IA com domínio técnico não perde capacidade de pensar — ele redireciona essa capacidade para onde ela gera mais valor: a estratégia, o julgamento, a relação com o cliente, a construção da tese. Para 2026, a expectativa consolidada no setor é que agentes de IA se comportem como copilotos dos profissionais do direito.
Por outro lado, o advogado que recusa a ferramenta não enriquece sua capacidade analítica. Ele simplesmente deixa de direcionar para a máquina tarefas que ela faria mais rápido e com menor taxa de erro mecânico. Enquanto isso, o concorrente usa a economia deste tempo para pensar de forma mais estratégica, atender mais clientes e construir argumentos mais sofisticados.
O mercado já deu seu veredicto. Segundo a Grand View Research, o mercado global de IA jurídica foi estimado em US$ 1,44 bilhão em 2024, com projeção de atingir US$ 3,9 bilhões até 2030 — crescimento anual composto de 17,3% ao longo do período.
No Brasil, segundo o anuário Análise Advocacia 2025, 47% dos escritórios eleitos "Mais Admirados" já consideram a inteligência artificial como principal ferramenta jurídica, à frente do Legal Design e dos sistemas de CRM combinados.
Segundo o Relatório sobre o Impacto da IA no Direito 2026, elaborado com mais de 1.800 operadores do Direito em todo o país, 77% dos advogados já utilizam IA com frequência — crescimento de 22 pontos percentuais em apenas um ano. O mesmo estudo aponta que 91% dos usuários relatam melhora na qualidade técnica do trabalho.
Esses números revelam um ponto de inflexão. A questão não é mais se a IA entrará nos escritórios, mas quando e quem vai gerir como ela entra.
Quando um gestor diz que não quer IA porque os advogados "vão perder a capacidade de pensar", é necessário distinguir duas camadas nessa afirmação.
A primeira é a resistência declarada: o argumento técnico de que a ferramenta é nociva ao raciocínio. Esse argumento, como visto, está empiricamente invertido. A IA bem usada por profissional qualificado eleva — não substitui — a capacidade analítica.
A segunda é a resistência real, que raramente aparece de forma explícita. Ela tem componentes legítimos — preocupação com confidencialidade de dados, com alucinações dos modelos, com ausência de governança interna, com o risco reputacional de erros de IA atribuídos ao escritório. Esses são problemas reais que merecem respostas reais, não negação da ferramenta.
E tem componentes que dizem respeito à dinâmica organizacional: a IA é uma tecnologia transversal. Ela não respeita hierarquias departamentais. Um advogado associado que domina bem uma ferramenta de IA pode produzir pesquisa jurídica com qualidade equivalente à de um sênior em metade do tempo. Isso reorganiza, silenciosamente, as relações de poder internas — fenômeno muito temido quando a resistência que está em jogo não é técnica.
Identificar qual resistência está em jogo é o primeiro passo para endereçá-la adequadamente.
A preocupação com governança é, na verdade, o argumento mais forte a favor da adoção estruturada — e não contra ela.
Um escritório que proíbe o uso de IA não elimina o risco. Ele apenas o transfere para o ambiente informal: advogados que usam ferramentas genéricas ou gratuitas em seus dispositivos pessoais, sem controle institucional, inserindo dados de clientes em plataformas sem cláusulas contratuais adequadas de confidencialidade.
A adoção institucional, com política clara, permite justamente o que a resistência teme que não haverá: supervisão, responsabilização, padrão de qualidade e proteção dos dados do cliente.
O escritório que estrutura isso agora não está cedendo a uma moda. Está construindo infraestrutura competitiva que levará anos para ser replicada por quem decidiu esperar.
O gestor ou sócio de um escritório não precisa entender os fundamentos técnicos dos modelos de linguagem para tomar uma decisão de adoção. Ele precisa entender três coisas:
A IA não opera no vácuo. Ela amplifica quem a usa — para o bem ou para o mal. Na mão de um advogado qualificado, ela libera capacidade estratégica. Na mão de alguém sem treinamento, ela produz texto vazio com aparência de autoridade.
A decisão de não adotar é, ela mesma, uma decisão estratégica com consequências. O mercado já se moveu. Clientes sofisticados já sabem que escritórios com IA entregam mais, mais rápido e, não raramente, com mais qualidade e segurança.
A adoção responsável não exige uma revolução interna imediata. Exige método: identificar os processos com maior potencial de ganho, escolher ferramentas adequadas ao perfil do escritório, treinar a equipe e construir cultura de uso crítico.
A pergunta que os sócios e gestores deveriam fazer não é "devo permitir que minha equipe use IA?"
A pergunta certa é: como vou capacitar minha equipe para o uso adequado da IA?
Os escritórios que responderem a essa pergunta com método, governança e investimento em capacitação serão os que, daqui a cinco anos, terão transformado a tecnologia em vantagem real — não apenas em tópico de apresentação.
A IA não é advogada. E é exatamente por isso que o advogado que a domina se torna insubstituível.
Nota do autor: Este artigo aborda a adoção estratégica de inteligência artificial em escritórios de advocacia sob a perspectiva da gestão e governança.
Fontes: Grand View Research, Global Legal AI Market Size & Outlook 2025–2030; Anuário Análise Advocacia 2025; Relatório sobre o Impacto da IA no Direito 2026 — OAB São Paulo / ITS Rio; Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB.